Dezembro 17, 2009

Blog # 506

Vai uma grande confusão por causa da “proibição de casamentos mistos” supostamente decretada pelo Papa (não é verdade; o Papa limitou-se a atualizar a lei vigente para católicos, em que um bispo ou um padre podem autorizá-los). Numa época de casamentos civis onde as religiões entram pela porta lateral, e em bicos de pés, decretar tal proibição seria um risco decisivo. O casamento dos outros não me interessa grande coisa (para não dizer que o casamento, propriamente dito, é um assunto menor) — mas interessa-me a forma como qualquer frase do Papa é dissecada até à sílaba, de modo a ver nela intenções malévolas que põem em risco a civilização tal como a conhecemos. O preconceito contra a religião é tão ridículo como qualquer preconceito eclesial. É uma obsessão infantil.

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Cuidai-vos rapazes: o novo romance de Inês Pedrosa, que sairá em finais de Fevereiro, leva o título ‘Os Íntimos’ (Dom Quixote) e nele só falam personagens masculinas. Imaginemos um grupo de homens diante da tv. É assim que começa.

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FRASES

"Já praticamente não tenho ressaca." Maradona, no blogue A Causa Foi Modificada.

"Qual o escândalo de ele ter 13 amantes? Caramba, se cada campo de golfe tem 18 buracos..." Domingos Amaral sobre Tiger Woods. Ontem, no CM.

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Dezembro 16, 2009

Blog # 505

Este período – o do Natal – elege a infância como um dos seus temas. As recordações e a alegria da infância. E até o nascimento da infância, propriamente dita, que nem é uma coisa tão antiga como isso. Quem contribuiu decisivamente para que a infância tivesse um destino e um sentido, além de um estatuto, foram os irmãos Grimm. O mais novo deles, Wilhelm, morreu há 150 anos, que deviam ser assinalados hoje. Os contos de Grimm foram decisivos para alimentar a imaginação. Muitos psicólogos e pedagogos acham que os seus contos têm bruxas e monstros a mais – e algumas das suas histórias foram banidas em nome da proteção das criancinhas, que ficam traumatizadas por tudo e por nada, ou porque “os valores mudaram”. Mudaram. Mas a verdade é que nem todas as mudanças são boas.

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É um dos grandes nomes da literatura cubana, que morreu no exílio em 1990, autor de ‘Antes que Anoiteça’. A Dom Quixote publicará, em Janeiro, ‘Mundo Alucinante’, de Reinaldo Arenas, uma grande homenagem à memória de Havana.

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FRASES

"Na Holanda uma pessoa para contar na sociedade tem de ler e ter uma estante com livros." J. Rentes de Carvalho, escritor luso-holandês, ontem no CM.

"Está frio. Irra. Hoje volta a não ser bom dia para falar de aquecimento global." Rodrigo Moita de Deus, no blogue 31 da Armada.

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Dezembro 15, 2009

Blog # 504

O Instituto de Meteorologia e a Proteção Civil decretaram “alertas amarelos” para vários distritos, o que eu suponho ser uma precaução, digamos, substancial. O que se passa para haver “alerta amarelo”? Uma ameaça terrorista? Uma barragem que está na iminência de desmoronar? Uma fenda abrindo-se na placa tectónica? Um ‘tsunami’ que se aproxima? Não. Pura e simplesmente, acho que vinham aí uns dias de frio. A Pátria devia agasalhar-se porque as temperaturas, dizem as autoridades, rondariam os zero graus, em média – durante a madrugada. Ora, o que vem dizer-nos o “alerta amarelo”? Que está aí o Inverno, aquela estação do ano em que as temperaturas descem e precisamos de usar lã, de vestir casacos e de ligar o aquecedor. Esta descoberta do Inverno é um grande acontecimento.

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Luís Miguel Queirós, um jornalista que ama o Porto, escreveu um dos livros mais saborosos sobre a cidade, ‘As Ruas do Porto’ (Figueirinhas), com fotos de José Eduardo Reis a acompanhar. Mais do que um livro: um guia e uma memória.

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FRASES

"É na blogosfera que se discute política a sério e nunca se discutiu tanta política." Paula Oliveira Silva, autora do livro ‘Blogo, Logo Existo’. Ontem, no CM.

"A história não pára só na estação que nos dá jeito." José Medeiros Ferreira, no blogue Bicho Carpinteiro.

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Dezembro 14, 2009

Blog # 503

O combate à corrupção está na ordem do dia — é uma moda gratificante. Na sexta-feira passada, o deputado Fernando Negrão defendeu a figura jurídica do “pré-crime”, uma coisa que o cinema conhece de ‘Relatório Minoritário’, que a literatura vasculha desde que Orwell escreveu ‘1984’ e que a política conhece de todas as ditaduras. Provavelmente, trata-se de um deslize de linguagem mas a expressão está lá. Trata-se de prevenir, dizem os especialistas. Não é. Trata-se de evitar que o ser humano caia em tentação. Se tirarmos todas as consequências da ideia de “pré-crime”, andaremos todos vigiados e sujeitos a escrutínio permanente dos nossos atos. Começa pela ideia moralista de “quem não deve não teme”, a preferida dos idiotas. Depois, até à paranoia da denúncia, é um passo.

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Anna Klobucka é professora no Massachussets, EUA, e é autora de ‘O Formato Mulher’ (Angelus Novus), em que analisa a emergência da “autoria feminina na poesia portuguesa”. De Florbela Espanca a Adília Lopes, um estudo a reter.

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FRASES

"Gostaria de poder viver longe dos emails e dos Blackberry’s ..." Rachel Weisz, atriz, representa o papel da filósofa Hypatia, no filme ‘Ágora'. Ontem, no CM.

"A bondade, conceito absolutamente desactualizado e potencialmente perverso." Joana Carvalho Dias, no blogue Hole Horror.

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Dezembro 12, 2009

Contagem decrescente

1. Na semana passada, descrevi os jogos com o Guimarães e com o Atlético de Madrid como «momentos-chave na carreira do FC Porto este ano». Eram. Ganhar ao Guimarães e ao Atlético (e expressivamente, como aconteceu), as duas etapas mais difíceis antes do jogo com o Benfica na Luz, podia trazer um suplemento de alma e de confiança aos campeões. Se, depois disso, o resultado com o Benfica – a equipa-surpresa da temporada – for positivo (entre o empate sem golos e a vitória por meio golo), pode dizer-se que ainda cheira a penta.

Isto arrelia os adversários. É bom. Pressão neles é coisa que dá jeito e funciona às mil maravilhas quando se discute o magnífico título de «campeão de Inverno», o ceptro que o Benfica mais tem conquistado nos últimos anos, salvo seja. Contagem decrescente é o que recomendo.

2. Sobre Bruno Alves, o seguinte: viram aquela elevação sobre uma barreira de colchoneros? Lindo. Bruno é um dos exemplos de balneário e de dedicação. Já oiço, como de costume, as adversativas da ordem: a violência, a agressividade, a dureza, a agressão. Conheço o argumentário tintim por tintim, mas não pega. Nos últimos anos, Bruno Alves foi o jogador que mais cresceu, que mais evoluiu e que mais serenamente afirmou o seu lugar na galeria dos que vale a pena distinguir.

3. Cristiano (Paços de Ferreira), lembram-se? Não há lugar para ele, como não havia para Nené (Nacional). Nené seguiu para Itália e marca como marcava no campeonato português; Cristiano (escrevi aqui sobre ele) vai para o PAOK. Claro que temos génios de sobra no nosso rectângulo, com talentos multimodais. Alguns, aliás, alinham no FC Porto, para minha desgraça, mas podemos fazer o recenseamento pelas outras equipas. Infelizmente, poucos desses «talentos indiscutíveis» têm a ver com futebol. Nené e Cristiano lembrar-se-ão de Portugal como a plataforma de onde partiram para Itália e para a Grécia. Tinham um problema sério com eles: eram baratinhos.

in A Bola - 12.12.2009

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Dezembro 11, 2009

Blog # 502

Poucos darão por isso, mas hoje é o Dia Internacional das Montanhas. Portugal não preza especialmente a sua natureza – vê as árvores de longe, serem consumidas pela erosão e pelos incêndios, aprecia as montanhas apenas como uma disposição geológica, despreza e suja os rios, maltrata o litoral (uma das nossas maiores riquezas), destrói a paisagem. Num país que tem uma propensão para criar coisas feias ao longo das estradas e em quase todas as vilas do interior, as montanhas são um bem inestimável. Passeamos pouco por elas. Desconhecemos o “espírito das montanhas”, como ignoramos o “espírito das árvores”, a sua grandiosidade e a sua solidão. O país nem lhes sabe os nomes, hoje em dia, convencido de que é uma ninharia. Aos poucos, vamos esquecendo os lugares onde se respira.

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Para fanáticos de John Le Carré: não gastem todo o dinheiro em Dezembro; a Dom Quixote reeditará, em Janeiro, “A Gente de Smiley”, um dos seus melhores romances de sempre. É indispensável ler para recordar o melhor de Le Carré.

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FRASES

"Dou graças por não ser deputado neste momento." José Medeiros Ferreira, no blogue Bicho Carpinteiro.

"Desculpem senhores deputados. Se prosseguem eu suspendo os trabalhos." Couto dos Santos, na sessão turbulenta da Comissão de Saúde. Ontem, no CM.

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Dezembro 10, 2009

Blog # 501

É hoje lançada em Lisboa a antologia ‘Poemas Portugueses’, organizada por Jorge Reis-Sá e Rui Lage (edição Porto Editora), com prefácio de Vasco Graça Moura e notas biográficas assinada por dezenas de autores. É um monumento de mais de duas mil páginas que percorre oito séculos de poesia e cujo índice conviria estar nas nossas escolas para consulta e divulgação. A poesia não vale grande coisa para estes dias – é uma espécie de sobressalto, de língua que vem da sombra para dar às coisas um nome flutuante. Não há grande coisa para dizer sobre a poesia. Devia ler-se. Para dentro ou em voz alta. Não que faça falta “à cidadania” ou “à sensibilidade”. Às tantas, as pessoas viveriam melhor sem literatura – mas eu duvido. Faltar-lhes-ia um suplemento de beleza ou de devassidão.

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Simon Mawer é um escritor inglês que viveu em Chipre, em Malta e na Itália – e que escreve um romance (‘A Sala de Vidro’) passado na Checoslováquia. Com uma elegância tocante e nostálgica, fala de arquitetura e de amor (Civilização).

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FRASES

"Espero que este tema não se arraste." D. Carlos Azevedo, bispo Auxiliar de Lisboa, sobre o casamento gay. Ontem, no CM.

"Substituir Sócrates por outro qualquer para dar de mamar aos seus, é curto." Eduardo Pitta, no blogue Da Literatura.

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Dezembro 09, 2009

Blog # 500

Discute-se muito, hoje, a questão “do carácter” dos políticos – mas muito em surdina, porque parece que é vergonhoso perguntar por ele, cada vez mais raro. Contra a questão “do carácter”, levanta-se “o debate de ideias”, aspeto que também merece dúvidas, uma vez que as poucas que circulam são de origem e efeitos duvidosos. No meio da discussão sobre uma coisa e outra, ou nenhuma delas, fica a questão de manter ou de conquistar o poder. Basta ler “Portugal Contemporâneo”, de Oliveira Martins, para perceber como esta intrujice é velha de dois ou mais séculos. Mentira, corrupção, falências e rabos de palha: é isto a política portuguesa no início do século. A linguagem é a mesma de há anos, empertigada, sonsa e vazia. Não é final de ano; é final de regime. A vida segue.

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Um romance para os tempos de hoje: ‘A Biblioteca da Piscina’, de Alan Hollinghurst (Asa), o mesmo autor de ‘A Linha da Beleza’, de 2004. Às vezes, a sexualidade é um empecilho; outras vezes, uma porta aberta para uma história.

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FRASES

"Vinha a escorrer sangue e com um grande buraco nas costas, onde levou o tiro." Mulher de Sérgio Oliveira, de 29 anos, na Póvoa de Varzim. Ontem, no CM.

"Nas estatísticas podemos ver tudo, consoante a cor das lentes dos óculos." Miguel Castelo Branco, no blogue Combustões.

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Dezembro 08, 2009

Blog # 499

Se há uma coisa boa na internet é termos acesso a documentos originais que fazem parte da nossa cultura literária e da nossa memória nacional. O espólio de Fernando Pessoa vai, finalmente, estar disponível na Biblioteca Nacional Digital – entre outras 10.500 páginas que qualquer um de nós pode consultar comodamente, a partir de casa (Eça, Antero, Camilo, etc.). Uma coisa, porém, são os documentos – de cuja utilidade ninguém duvida (e era uma pena que os papéis de Pessoa ainda não estivessem totalmente digitalizados). Outra, bem diferente, é a leitura dessa obras. Não se podem confundir. O armazenamento dos clássicos, que é útil, não substitui a sua leitura, mais necessária – na escola ou por cada um. Por gosto e, também, por obrigação. É o nosso Bilhete de Identidade.

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Representação Política” é uma útil antologia de textos clássicos, do conservador Edmund Burke ao marxista Giörgy Lukács sobre como se estruturam os parlamentos. Organização de Diogo Pires Aurélio (Livros Horizonte).

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FRASES

"Os milhões com fome, sem emprego e sem futuro vão matar esta III República." António Ribeiro Ferreira, ontem, no CM.

"Vão preservar florestas para a estrada." Maradona, no blogue A Causa Foi Modificada.

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Dezembro 07, 2009

Blog # 498

Comemoram-se hoje os 350 anos da fundação de Ciudad Juárez. Não há quase nada que recomende esta cidade do estado mexicano de Chihuahua, feia e cercada pela violência, como a mais indicada para um turista, a não ser a memória do cinema (‘Man of Fire’, com Denzel Washington, por exemplo, mas também numerosos westerns porque está ligada à fronteira texana de El Paso), da música (‘Cocaine Blues’, de Johnny Cash e ‘Just Like Tom Thumb's Blues’, de Bob Dylan, para não ir mais longe) e da literatura: é um dos cenários de Cormac McCarthy, e o grande palco para o monumental ‘2666’, de Roberto Bolaño, onde aparece como Santa Teresa, a cidade dos mil crimes que ainda aterrorizam a região. A literatura e a sua magia vivem em lugares estranhos, como se sabe. Até em Ciudad Juárez.

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Santiago Zavala à conversa com Ambrósio em Lima, no Peru corrupto e violento: é este o cenário para ‘Conversa na Catedral’, de Mário Vargas Llosa, em nova edição (D. Quixote) – um dos grandes livros da literatura latino-americana.

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FRASES

"Por que razão anda tanta gente a ensinar ao PSD qual deve ser a sua política?" José Pacheco Pereira, no blogue Abrupto.

"Na prática, funciona. Mas funcionará na teoria?" Paulo Nogueira, ontem, no CM.

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Dezembro 05, 2009

Testes e desafios

1. Dois testes: contra o Guimarães, hoje, e contra o Atlético de Madrid para a semana. Não apenas testes formais durante uma prova formal – em meu entender, são momentos-chave na carreira do FC Porto este ano. Não o digo para ilustrar a fome de espectáculo que devora os adeptos; mas porque um módico de estabilidade permitirá enfrentar os rigores do Inverno com outra disposição. Evidentemente que a «jurisprudência de bancada», muito benfiquista, rejubilará com o título de «campeão de Inverno», mais uma espécie de troféu inventado para saciar apetites inconfessáveis. Mas, para quem achou «fantástico» o jogo com o Bate Borisov, basta sorrir e explicar que a poção mágica está a atingir níveis críticos.

Por isso, os testes do Guimarães (uma equipa que encontrou um suplemento de alma com o novo treinador e um jogo mais eficaz nas últimas partidas) e com o Atlético de Madrid, são decisivos. Não são testes fatais – são decisivos. Compare-se com a situação do ano passado e veja-se como não vale a pena entrar na fase de descrença por parte do FC Porto, e como não se pode encomendar a passadeira vermelha para o título lampião. Se é que me entendem.

2. Para que se perceba o que é um adepto: o Benfica apresentou prejuízo de 6,1 milhões; o Sporting com prejuízo de 2,39 milhões no primeiro trimestre, e o FC Porto com lucro de 23,5 milhões. Qualquer um ficaria exausto de alegria e de fé. Cumpre-me anunciar que não quero saber disso, a não ser de passagem e para irritar os adversários. Quero golaços. Alienação. Ópio. Bancadas de pé. Aplausos. Aquela vibração das redes depois de um golaço. De outro. Um adepto quer futebol.

Cabe às administrações das SAD festejar lucros – mas é bom que, tanto as administrações como os técnicos, desçam (ou subam) às bancadas de vez em quando e oiçam o rumor. É esse o desafio a colocar às administrações e aos negociantes – conseguir aquele flutuante ponto de desequilíbrio em que se definem os campeões.

in A Bola - 5 Dezembro 2009

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Dezembro 04, 2009

Blog # 497

Woody Allen acha que os americanos são sexualmente reprimidos e que as cenas de sexo idealizadas pelos americanos são “entediantes e aborrecidas”. Há ondas. Vagas. Os anos sessenta passam por terem sido “os da libertação sexual”; os anos oitenta, os da regressão, com a Sida a ameaça;. O sexo transformou-se numa referência central de todo o discurso público, da publicidade à política. É impossível atravessar uma cidade, ler um livro ou ver um filme sem topar com ele, o sexo – uma das coisas mais sagradas da nossa vida. A sua banalização retirou-lhe o enigma, a perversidade e o pecado. Sem pecado, sem interdito e sem segredo, aliás, não pode haver sexo satisfatório. O cinema e a televisão, a arte pop e a net banalizaram tudo. Transformaram tudo no seu tédio particular.

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Monumental, essencial, indispensável – a fotobiografia, aliás ‘Memórias Fotobiográficas’ de Camilo Castelo Branco, por um dos seus grandes cultores, José Viale Moutinho (Caminho). Camilo, o nosso grande romancista, merecia-o.

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FRASES

"Julgo que o país ainda suporta alguma decência." Luís M. Jorge, no blogue Vida Breve.

"O PSD andou um tanto a reboque dos impulsos do pêndulo da História." Pinto Balsemão, militante n.º 1 do PSD, ontem, no CM.

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Dezembro 03, 2009

Blog # 496

Quem mexe nas escutas, suja-se. Que o digam o ministro Vieira da Silva e o deputado Ricardo Rodrigues, que só conseguiram embrulhar ainda mais a sua própria embrulhada. Antigamente, quando se liam romances de espionagem – um género que não acabou com a queda do Muro de Berlim ou o epílogo de John Le Carré –, seria mais fácil encontrar um argumento onde coubesse este caso de papéis perdidos e gravações esdrúxulas. O final seria arrebatador, com surpresas de bom gosto e punições para os pérfidos. Mas isto não é política, lamento. Política é estarmos com endividamento adicional de 500 euros por segundo, sem falar do peso que isso tem no nosso PIB, e não se saber o que fazer para pôr um travão a essa desgraça. Desculpem o retrato, que não vem nas escutas – mas devia.

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Resendes Ventura, ou seja, Manuel Medeiros, fundador da livraria Culsete, de Setúbal, publica ‘Papel a Mais’ (Esfera do Caos), notas, cadernos, crónicas e poesia de um livreiro e amante de livros. Lê-lo é uma homenagem ao Livro.

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FRASES

"Quem conhece a Suíça sabe bem que se trata do país mais chato do Mundo." Domingos Amaral, ontem, no CM.

"Nunca em quinze anos de quotas pagas consegui arrastar uma pessoa do sexo oposto para Alvalade." Rogério Casanova, no blogue Pastoral Portuguesa.

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Dezembro 02, 2009

Blog # 495

O romance ‘As Benevolentes’, de Jonathan Littel (publicado pela D. Quixote), acaba de ganhar o prémio para “a pior cena de sexo em literatura de ficção”, atribuído pela ‘Literary Review’. O livro foi um caso sério na edição portuguesa do ano passado – mas escrever sobre sexo destrói a honorabilidade de qualquer narrador. Basta uma metáfora fora do lugar. Na literatura portuguesa, por exemplo, devia ser proibido escrever sobre sexo até serem banidas as metáforas e as imagens corriqueiras e poéticas mais usadas. Não temos jeito. Não temos a malandrice brasileira nem o sentido da crueza de outras línguas. Ainda poucos perceberam que a melhor forma de escrever sobre sexo é, justamente, voltar a página e deixar os personagens a fazerem o que têm de fazer, em liberdade.

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Foi um dos livros mais marcantes na minha formação política, ‘A Riqueza e a Pobreza das Nações’, de David Landes. A Gradiva publica agora ‘A Revolução no Tempo’, sobre a forma como os relógios mudaram a nossa vida e a economia.

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FRASES

"Com a morte do Dubai, caiu por terra a religião do dinheiro sem trabalho." Miguel Castelo Branco, no blogue Combustões.

"Entreguem-no ao povo. Tem de ser morto, devia arder em frente ao povo!". Multidão à porta do Tribunal onde foi interrogado Mário Pessoa, que matou a mulher e um militar da GNR. Ontem, no CM.

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Dezembro 01, 2009

Blog # 494

O Prémio Cervantes, uma espécie de Nobel das letras hispânicas, foi atribuído ao mexicano José Emilio Pacheco. Poeta, ficcionista, ensaísta, professor, José Emilio Pacheco não é um patriarca das letras, nem está na primeira linha da “diplomacia literária” muito em voga, e onde se misturam política, esquecimento e glória terrena – a sua “resistência contra a barbárie” é uma espécie de dogma contra a mediocridade dos políticos. Acontece que Pacheco é um dos maiores escritores do espaço ibero-americano (e ao qual é dedicada essa cimeira insolúvel que agora decorre em Cascais), e um poeta que se aproxima do irrepetível. Curiosamente, em Portugal, Pacheco é publicado (pela Oficina do Livro, e graças à insistência de Marcelo Teixeira) numa coleção intitulada “Ovelha Negra”.

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Em Busca da Felicidade’: são dez histórias e dez autores (edição D. Quixote). Entre eles, João Tordo, José Luís Peixoto, Patrícia Reis, Dulce Maria Cardoso, Pepetela, Valter Hugo Mãe ou Maria do Rosário Pedreira. Imaginemos a felicidade.

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FRASES

"Em Portugal, o Natal contado por Dickens parece assustadoramente contemporâneo." A. Esteves Pereira, ontem, no CM.

"Quando vejo a Shakira, a primeira coisa que me ocorre é ajudar as crianças." M. Jorge Marmelo, no blogue Teatro Anatómico.

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