Novembro 07, 2009

Viram? Não resultou.

Viram? Resultou, afinal. O FC Porto segue em frente na Liga dos Campeões como único representante português na maior competição mundial de clubes de futebol – não vale a pena enumerar os factores que fazem do FC Porto um «caso de sucesso» nos esquadrões lusitanos da bola; para isso estão economistas e políticos de passagem, especialistas em cotação na bolsa e astrólogos que fazem previsões sobre a vida financeira das sociedades anónimas desportivas. Nós, pobre gente sem competência, interessamo-nos por futebol. Comovemo-nos com Radomel Falcao, arrepiamo-nos com uma incursão de Hulk (a quem apetece puxar as orelhas depois de falhar um golo daqueles), lembramos uma jogada que desperta a ilusão de uma felicidade momentânea. Não são precisos grandes comentários sobre o assunto.

Também não foi preciso nenhum fundamentalista da ordem vir acusar-me de ser «um homem em fé» – a festa da passagem aos oitavos-de-final obnubilou os vigilantes e a coisa passou. Lembro-lhes que não passou. Foi o próprio Jesualdo que lembrou que a qualidade do futebol praticado nem sempre esteve ao melhor nível, que faltava ali qualquer coisa, que não podia ser. Ah, como ele tem razão. Às vezes isso acontece; acontece durante semanas, acontece durante dois meses, meia temporada cheia de desníveis e solavancos – mas o talento ultrapassa os desaires e as desconfianças. Dois ou três leitores que, como eu, vestem de azul-e-branco, acham que eu sou especialista em não confiar em Jesualdo, e escreveram-me a dizê-lo. É mentira: apenas lembro, ai de mim, os melhores momentos do FC Porto recente e pergunto por que razão não estamos «ao nível». Lá iremos, dizemos todos nós, semana a semana. No fundo, já estamos a dois pontos do Benfica (lembrando o Bom Jesus de Braga e fazendo contas para os próximos jogos) e nunca se sabe. Depois da passagem à nova fase da Champions, talvez laterais e miolo respirem melhor e afinem a pontaria. Já que o jogo com o Belenenses é melhor esquecê-lo, digamos que Braga e Nicósia serviram como preparação psicológica, foi o que foi.

in A Bola - 07 Novembro 2009

Etiquetas:

Novembro 06, 2009

Blog # 477

O CM de ontem conta como vai Portugal. Aconteceu na província: aquela cena em que Linda Reis – uma personagem grotesca conhecida como “Pomba Gira” – decidiu fazer strip-tease e dedicar-se a fazer sexo oral a um desconhecido presente na pista de dança de uma festa em Amares (o Minho tem direito às suas excentricidades) para a qual estavam convidadas figuras “da sociedade”. Muita gente ficou chocada com a atuação, ou porque a personagem não emigrou da Playboy para o Minho, diretamente, ou porque lhe fez impressão o gesto. Mas o país está assim desde há uns tempos, meio pornográfico, brincando no fio da navalha, transpirando sexo e graçolas em tudo. Agora, aguente-se com as consequências e não precisa de corar, envergonhado. A “Pomba Gira” limitou-se a aproveitar a boleia.

***

Literatura espanhola em belos livros da Minotauro – um deles é ‘Crematório’, de Rafael Chirbes, um valenciano que conta a forma como a costa mediterrânica foi sendo destruída pela corrupção e pela degradação dos homens.

***

FRASES

"Estamos a ultrapassar todos os limites." Manuel Alegre, sobre a corrupção. Ontem, no CM.

"[José Sócrates] é a versão lacaniana da linguagem dos taxistas." Filipe Nunes Vicente, no blogue Mar Salgado.

Etiquetas:

Novembro 05, 2009

Blog # 476

O governo decidiu quais são os acontecimentos “de interesse generalizado do público” que têm de ser transmitidos em sinal aberto pelas televisões, todos de âmbito desportivo (sete são jogos de futebol, num total de dez). Claro que existe uma ideia de “serviço público”, ao cantinho. Cabe lá o que sabemos. Bem o conheço, ao serviço público: uma espécie de gueto que ninguém quer emitir, a menos que o Estado pague. É curioso como o Estado define aquilo que o público tem manifesto interesse em ver. Como chegou lá, a essa conclusão? Pelo que lhe parece – e pelo que lhe interessa a si próprio. Que a populaça se deixe ficar pela bola, pelo desporto em geral e pelas mensagens dos órgãos de soberania. É um sinal dos tempos e desta gente. Um rico sintoma, se querem que lhes diga.

***

Quem são os Dabney, que desembarcaram em 1806 na ilha do Faial? Maria Filomena Mónica leu-lhes a correspondência (em ‘Os Dabney. Uma Família Americana nos Açores’) e o retrato é tão vivo que comove o leitor de hoje (Tinta da China).

***

FRASES

"Estou arrependida. Se pudesse voltar atrás não o tinha feito." Fátima Velosa, que matou o namorado com ácido sulfúrico e absolvida pelo tribunal, por ser inimputável. Ontem, no CM.

"A ministra continua a ser a Mãe da gripe, sem ver que se pode tornar na sua Viúva." Luís Januário, no blogue A Natureza do Mal.

Etiquetas:

Novembro 04, 2009

Blog # 475

De Claude Lévi-Strauss herdámos ‘Tristes Trópicos’, evidentemente – mais do que uma autobiografia intelectual, uma referência ao trabalho e ao olhar do antropólogo mais influente do século XX que morreu com 100 anos de idade. Menciono ‘Tristes Trópicos’ porque é um livro que ultrapassa largamente a antropologia e a carreira do próprio Lévi-Strauss, que começou por se dedicar a observar os índios do Brasil; é um livro sobre a observação do mundo, sobre a arte de escutar as sociedades, as primitivas e as modernas. Outra das heranças de Lévi-Strauss tem a ver com esta ideia simples e perigosa, que coloca a natureza no campo das nossas atenções: o homem não é o centro do universo e o progresso não é sempre um triunfo inquestionável. Era uma das imagens do nosso tempo.

***

Pudor e Dignidade’, de Dag Solstad (Ahab) pode ser visto como a reabilitação do que mais forte existe na literatura norueguesa: a sua intensidade dramática, a nostalgia sem arrependimento, uma tristeza que vem do fundo. Belo romance.

***

FRASES

"Se ninguém quer realmente ir para lá, então deixem o [Pedro Passos] Coelho ir." Luciano Amaral, no blogue Gato do Chesire.

"Lamento que a política seja sempre mais forte do que os compromissos com a cultura." Inês Pedrosa, ontem, no CM.

Etiquetas:

Novembro 03, 2009

Blog # 474

A Câmara de Cascais abriu, com a pompa e a circunstância devidas, um museu dedicado à obra de Paula Rego (a Casa das Histórias). Para a tarefa incumbiu Dalila Rodrigues, que já tinha dirigido, com a competência conhecida, o Museu Nacional de Arte Antiga – de que foi polemicamente afastada, por motivos políticos. Depois do sucesso da inauguração, Dalila Rodrigues não foi propriamente afastada do projeto – apenas não foi reconduzida a título definitivo, o que é a mesma coisa. Quem o decidiu? O facto de “não haver unanimidade” no Conselho de Administração da Fundação Paula Rego, sobre o qual correm versões distintas que deixam pairar a suspeita sobre a forma como a Câmara de Cascais conduziu o processo. Política é política, já se vê; mas Dalila Rodrigues merece mais respeito.

***

Na coleção Biblioteca de Babel (originalmente dirigida por Jorge Luís Borges para Franco Maria Ricci, e publicada em Portugal pela Presença), acaba de sair ‘Bartleby, o Escrivão’, de Herman Melville. Um momento de grande beleza.

***

FRASES

"As pessoas andam todas à procura do orgasmo perfeito." Vânia Beliz, sexóloga. Ontem no CM.

"Ontem adormeci a pensar em jogadores ambidextros. Ajudem-me, sou uma pessoa monomaníaca." Bruno Sena Martins, no blogue Avatares de um Desejo.

Etiquetas:

Novembro 02, 2009

Blog # 473

A sua voz não se esquece tão facilmente. António Sérgio acompanhou anos e anos da nossa vida e nunca nos serviu rock embrulhado em plástico ou de imitação. Com alguns dos seus programas (o histórico “Som da Frente”, o “Hora do Lobo”, “Lança-Chamas” ou “O Grande Delta”), António Sérgio marcou a rádio e disciplinou-a: onde ele estivesse estava o rock de que não se desconfiava – e a sua voz planava como uma garantia. No pobre mundo da rádio dominado pelas estrelas do pop, ele via mais longe, perturbando, iluminando o estreito caminho onde as bandas se multiplicavam e as falsificações eram numerosas. Na sua morte, os anjos só não se reúnem numa pista de dança porque não sabem dançar; mas escutam-lhe a playlist e recebem-no com surpresa e uma ligeira vénia. Em nome do rock.

***

No final desta semana estará nas livrarias, finalmente, o aguardado ‘Blackpot’, novela inédita de Dennis McShade (mas sem Peter Maynard, o seu personagem patifório), aliás Dinis Machado. Na Assírio & Alvim. Vamos para a fila.

***

FRASES

"Nenhum candidato a profeta partidário se preocupou com ideias, mas apenas com poder." João Gonçalves, no blogue Portugal dos Pequeninos.

"Este é um espaço cultural bastante interessante. Vim com a irmã da minha namorada." Diogo Rosa, visitante do Salão Erótico da Lisboa. Ontem, no CM.

Etiquetas:

Outubro 31, 2009

O modelo e o sistema

O FC Porto não anda no seu melhor e abre a defesa sem cerimónia para que o adversário faça pela vida. Isto é muito bom para os adversários, mas nós trememos na bancada ao imaginar a repetição dos primeiros quarenta e cinco minutos contra a Académica. Ao fim desse tempo, apetece a qualquer um entrar em campo e vergastar aqueles repolhos ambulantes que falham passes com galhardia e se expõem aos assobios; mas um resto de pundonor deixa-nos pregados ao assento, à espera de um golo, dois, três. E lá vem o buraco nas trincheiras da defesa.

Jesualdo diz, uma, duas, três vezes, que a equipa não pode jogar assim. E tem razão; mas, então, ele que trate de ordenar aquela barafunda. Recordo aos leitores esta passagem de uma entrevista de Setembro do ano passado (ao Público), em que Jesualdo Ferreira explicava o nervo do jogo: «O FC Porto tem o seu sistema-base. E depois tem princípios, tem métodos e tem estratégias que variam necessariamente tendo em vista alcançar determinados rendimentos e resultados. O sistema-base não define o modelo. O modelo é um conjunto de sistemas, princípios, métodos e estratégias. O que se pretende atingir cada vez com maior eficácia é que é o modelo.»

Lido isto (que na altura me deixou em coma estratégico, mas silencioso), há uma coisa que eu não entendo, e admito que seja por culpa minha: quando é que se joga de novo?

A temporada do Benfica está a ultrapassar todas as expectativas, incluindo as de Jorge Jesus. Ao sair de Braga, deixando o Bom Jesus para trás, ele não imaginava que ia limpar o Everton ou o Nacional com esta clareza – por mais que se tenha na conta de bom treinador (e auto-estima não lhe falta, como sabemos). Alguma coisa haverá, mas não me meto nos balneários do adversário. Escrevo por outra coisa: incomodam-me as “vestais do futebol”, muito moralistas. Desta vez, criticaram Jesus por ter levantado quadro dedos na direcção do treinador adversário. Que isso era uma ofensa. Ofensa? Só se fosse por não lhe ter mostrado os dedos dos golos que faltavam. Deixem-se de mariquices.

in A Bola - 31 Outubro 2009

Etiquetas:

Outubro 30, 2009

Blog # 472

Caim’, de Saramago, ou ‘Fúria Divina’, de Rodrigues dos Santos, tratam de religião, cada um à sua maneira e com intensidades naturalmente diferentes – um encarando a Bíblia, outro perdendo-se entre os seguidores do Corão. O novo romance de Dan Brown também não anda longe porque a maçonaria é uma religião laica e de imaginação prodigiosa. O que levará estas almas a acertar contas com o misterioso, o invisível e o improvável? Precisamente porque essas coisas estão no coração das pessoas. Não exactamente de todas – mas das pessoas que respiram e se distinguem por olharem mais longe. Precisamente, o que custa é perceber que tudo isto se banaliza, justamente, como se fossem produtos de supermercado com instruções para uso mais ou menos garantido. Deus detesta a banalidade.

***

Olivier Rolin é um dos grandes autores franceses que vale a pena conhecer – mesmo que tenha preconceitos contra “a literatura francesa”. Experimente ‘Um Caçador de Leões’, finalista do Goncourt, que a Sextante acaba de publicar.

***

FRASES

"Há quem queira perpetuar o instante do orgasmo, mas parece-me uma perspectiva extenuante." No blogue Ouriquense.

"Faço o que gosto e não ligo ao que os outros pensam, senão o País não avança. O corpo é meu." Erica Fontes, 18 anos, actriz porno. Ontem, no CM.

Etiquetas:

Outubro 29, 2009

Blog # 471

O chileno Luis Sepúlveda é, provavelmente, um dos últimos representantes da larga geração de escritores latino-americanos que procurou na Europa um lugar para viver depois de os seus países terem sido ocupados por ditaduras militares. A Europa acolheu-os por motivos políticos e literários. Eles eram a última hipótese de o bom selvagem ser substituído pelo bom revolucionário; acontece que Sepúlveda ultrapassa largamente a sua condição política e escreveu livros como ‘O Velho Que Lia Romances de Amor’ ou ‘As Rosas de Atacama’. O seu livro ‘A Sombra do Que Fomos’ (Porto Editora) trata dessa memória – nostalgias de esquerda que sobrevivem porque são contadas de forma magistral, sem pena nem tragédia. Sepúlveda continua com uma mão única, um excelente contador de histórias.

***

Aviso-vos: ‘A Princesa de Gelo’, de Camilla Läckberg (Oceanos) é uma grande história policial: um mundo aterrador no interior da Suécia. Comecei a ler ontem, ainda não pude parar. Sai a 9 de Novembro para as livrarias; vão lá.

***

FRASES

"Gerir o quotidiano, os egos. Nada de reformas ou mudanças: o pessoal não gosta." Tomás Vasques, no blogue Hoje Há Conquilhas.

"Fazer chantagem com novas eleições. Esta é a grande prioridade do novo Governo." António Ribeiro Ferreira, ontem, no CM.

Etiquetas:

Outubro 28, 2009

Blog # 470

Parece que, apesar de vários discursos oficiais e do habitual folclore ‘politicamente correto’, Portugal caiu cinco posições num ‘ranking’ que mede as desigualdades entre homens e mulheres e está agora em 46.° lugar, atrás da África do Sul ou do Lesoto, por exemplo. Mas também do Sri Lanka, da Argentina, da Namíbia ou da Bielorússia. Os critérios deste índice, patrocinado pelo Fórum Económico Mundial, são discutíveis e alguns difíceis de medir. Mas tome-se este exemplo: depois da tomada de posse do governo com mais mulheres na história portuguesa, as únicas fotografias que ontem apareceram na imprensa – eram de homens, isoladamente ou em grupo. Nem por isso especialmente interessantes, os ministros vestiam de cinzento e sorriam entre eles, ligeiramente cansados do poder.

***

Jean Améry nasceu em Viena (1912) e suicidou-se em 1978, em Salzburgo. Escreveu “Atentar Contra Si. Discurso Sobre a Morte Voluntária” (Assírio & Alvim), justamente sobre o suicídio, que ele chama ‘paradoxal’, mas não ‘absurdo’.

***

FRASES

"Escrever bem é fazê-lo com concisão e sentido, mesmo não dizendo nada, como faz Tchékhov." GAF, no blogue O Vermelho e o Negro.

"Porque é que nós não podemos pensar sempre grande?" Carlos Queirós, depois do interessante percurso da seleção nacional. Ontem, no CM.

Etiquetas:

Outubro 27, 2009

Blog # 469

Releio, sem muita surpresa, as últimas páginas do novo livro de Dan Brown, ‘O Símbolo Perdido’, que será publicado na próxima sexta-feira em Portugal (Bertrand). A certa altura, uma personagem, Katherine Solomon, enumera a trilogia básica do romance: “Mistérios Antigos, ciência e Sagradas Escrituras.” Esta é a trilogia básica de Dan Brown e não deve ser escarnecida – vai de encontro aos tempos que correm, onde a dúvida procura prolongar-se nos braços de qualquer incerteza. Robert Langdon, o seu personagem (o mesmo de ‘O Código DaVinci’), entra numa corrida alucinante que decorre nos túneis, labirintos e esconderijos de Washington; é uma cidade totalmente nova que se revela aos nossos olhos, sob o peso do mistério. E sim, é também alucinante o ritmo da história. Diabólico.

***

A Livraria Artes e Letras/Solmar, de Ponta Delgada, tomou a seu cargo a edição de ‘As Ilhas Desconhecidas’, de Raul Brandão. Tem um prefácio de António M.B. Machado Pires e vale sempre a pena a releitura deste livro maravilhoso.

***

FRASES

"Inspiro-me em Camões para terminar. Aqui estamos." José Sócrates, ontem, no CM online.

"Sócrates fez bem em agrupar as prioridades – antes que a realidade lhe entre pela janela." José Medeiros Ferreira, no blogue Bicho Carpinteiro.

Etiquetas:

Outubro 26, 2009

Blog # 468

Nos últimos dias falou-se muito de religião e de Deus. São coisas diferentes, como se sabe – Deus vive no meio do deserto e não tem nome, nem sombra, nem destino. O seu caminho está coberto pela poeira que esvoaça diante das muralhas que as religiões construíram. Não seremos melhores sem Deus; não seremos piores sem religião organizada. Mas seremos mais infelizes ou incompletos se ficarmos mudos a esse apelo do indizível, do invisível, do deserto. Um instante que seja, uma vez na nossa vida. O nosso mundo explica tudo com grande limpeza e tem uma grande vontade de “transparência”; temos universidades, laboratórios, instrumentos, medições – o que falhou, então, para que se oiça tantas vezes essa voz muda que atravessou séculos de dúvida? Incertos – é isso o que somos.

***

Uma das obras mais surpreendentes, estranhas e, ao mesmo tempo, ignoradas da poesia contemporânea: a Assírio e Alvim rende homenagem a Adília Lopes publicando ‘Dobra’, que reúne a sua obra poética num só volume. Para anotar.

***

FRASES

"A haver um atentado, não vai ser aqui. Portanto, os portugueses podem ficar tranquilos." José Rodrigues dos Santos, ontem, no CM.

"A última coisa de que o PS precisa são tribunais a funcionar." Luís M. Jorge, no blogue Vida Breve.

Etiquetas:

Outubro 24, 2009

Números e factos

Mesmo com incidentes e acidentes, o jogo com o APOEL aproxima o FC Porto de mais uma fase na Liga dos Campeões, os oitavos de final. É preciso mais um esforço em Chipre, dirão os mais realistas e optimistas, preocupados com o essencial – os resultados, a eficácia do marcador, o que afinal interessa: passar em frente. Há estatísticas que ajudam: o número de remates à baliza, por exemplo, diz que o FC Porto ataca bastante. Infelizmente, o jogo com o APOEL teve bastantes remates mas um resultado magro que prolongou o jogo para lá do desejável e até do aceitável. Fucile, no final, disse que nunca viu o jogo em perigo. Eu vi, todos vimos. É essa a diferença entre este FC Porto (que, caramba!, irá a Chipre sem Mariano) e o FC Porto do ano passado: nós, adeptos, sofremos mais.

Se a observação parece antipática, já Jesualdo tem de entender o sofrimento dos outros – de nós, que não sabemos de arquitectura e de jogo tirado à esquadria, mas que estamos sentados em redor do relvado a contar os minutos de jogo. Ele que me perdoe, mas eu não quero passar noventa minutos assustados pelo APOEL (quem?). Ou então que venha um subsídio para Xanax.

O FC Porto tem de ter sempre alguém para que as bancadas possam assobiar à vontade. Este ano é Mariano González, que tem aquele ar de empregado de mesa do café Tortoni, de Buenos Aires. O cabelinho, o jeito de segurar na bandeja, tudo – ele tem feito de empregado de mesa, até quando é expulso. Até a maneira como a clientela fica exasperada. E, no entanto, os números do jogo com o APOEL, por exemplo, mostram quanto são injustos os assobios diante dos passes certos e das curvas que desenhou pelo relvado. Em outras épocas, houve outros jogadores. Lambro-me de Quaresma entrar em campo e de se levantarem os assobiadores – era injusto, porque Quaresma tinha o seu jeito, o seu compasso, uma forma de pôr os pés no tablao em que exercitava o seu flamenco. Uma coisa, porém, era ver assobiar Quaresma e mandar calar o coro de juízes de bancada; outra, diferente, é pensar que o FC Porto vai a Chipre sem Mariano. E respirar de alívio.

Etiquetas:

Outubro 23, 2009

Blog # 467

Há um sem-fim de coisas para a agenda da nova ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, mas é preciso dizer que se trata de uma boa escolha. Tem a seu favor o facto de não ter receio de pressões e de saber lidar com elas – e isso é importante porque é preciso fazer escolhas certas e limitadas. É preciso inventar (porque a cultura não existe sem isso), reorganizar e motivar. O património, material e imaterial (dos monumentos à música, das bibliotecas à fotografia e à Internet), espera por decisões e ações. Os subsídios devem merecer-se e não devem ser garantidos à partida. Um eixo fundamental é o da ligação entre a cultura e a educação, para que esta não seja absorvida por tecnocratas. Há muito a fazer, felizmente. Gabriela Canavilhas tem mostrado que gosta de desafios.

***

Ian Kershaw é o autor da monumental biografia de Adolf Hitler publicada pela Dom Quixote. Mais de mil páginas de dados, factos relevantes e um retrato a frio do ditador da Alemanha nazi. Um monumento, de facto.

***

FRASES

"Sem net, a minha vida está arruinada; sem televisão, continua e por bons caminhos." Bernardo Pires de Lima, no blogue União de Facto.

"O Primeiro-Ministro sabe muito de jogo; não do Grande Jogo que é o desenvolvimento do País."
Paula Teixeira da Cruz, ontem, no CM.

Etiquetas:

Outubro 22, 2009

Blog # 466

Temos uma má relação com a polémica. José Saramago disse sobre a Bíblia e as igrejas uma série de coisas previsíveis e houve quem lhe respondesse e ripostasse – nada de mais natural e saudável. É só literatura. Mas houve quem avariasse e tivesse perdido a cabeça de repente: Mário David, eurodeputado e vice-presidente do Parlamento Europeu pediu a Saramago que “fosse consequente” e abdicasse da cidadania portuguesa porque as suas opiniões ofendem Mário David. O dislate não se compreende. Assim, de cada vez que as opiniões de alguém “ofendessem os portugueses”, lá teríamos de lhe pedir para devolver o passaporte. Não. Saramago tem todo o direito de dizer o que disse. E nós de discutir forte com ele. É isso que nos permite viver uns com os outros, pensando coisas diferentes.

***

Onésimo Teotónio de Almeida ensina em Providence, EUA, na Brown. Acaba de publicar ‘De Marx a Darwin. A Desconfiança dos Intelectuais’ (Gradiva), um livro a não perder, para entrar num dos grandes debates de hoje. Lê-se de um trago.

***

FRASES

"Se fosse o Ricardo Araújo Pereira a dizer mal da Bíblia, aí preocupava-me. Agora o Saramago?" Domingos Amaral, ontem, no CM.

"No fundo, parece-me que é mesmo isso que Saramago procura: uma prova da existência de Deus." Paulo P. Mascarenhas, no blogue 31 da Armada.

Etiquetas: